domingo, 13 de fevereiro de 2011

AnaCrônicas II

Não foi a primeira vez que Ana se viu naquela situação. A diferença é que, pela primeira vez, decidiu se posicionar sobre seu maior medo.

Com a viagem do marido, no momento em que fechou a porta, a pressão das paredes foi quase sobre-humana. Milhões de sons se dissolviam ao mesmo tempo à espera do grito fulminante que um dia ela sabia que precisava dar.

Mas sabia também, com pesar, que não seria aquele o derradeiro momento de sua maior angústia. Não, não era a ausência de pessoas, de vozes, de risos; não era a ausência de batimentos cardíacos que a assustava: era o vazio gelado que só ela sentia no peito.

Veio, é claro, aquela velha vontade lancinante de fingir que nada daquilo era problema dela. Fugir. Voltar no tempo. Se matar só por uma noite.

Mas não, nada disso adiantaria. Cabia a ela a força e a coragem de sair da própria inércia e perceber que tudo dependia do quanto ela acreditava em si própria, no seu poder, nos seus talentos. No quanto Ana era linda e merecia ser amada, ser amada pelos outros e - principalmente - por si própria.

Ela sabia de tudo isso. Ela sempre soube... mas saber é muito racional e para qualquer outro processo talvez fossem necessários dias, meses, anos, quem sabe uma outra encarnação; ou talvez tudo se resolvesse amanhã, quando o sol a fizesse esquecer a dor de sua eterna solidão.

Ana esperou a lágrima secar e dormiu. Foi até bonito o sonho que teve.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Verdades Acóolicas

Não, eu não estou bêbado! Apesar de todo bêbado começar qualquer discurso com essa frase, a verdade é que não estou bêbado.

Eu apenas refletia sobre o poder do vinho sobre o coração das pessoas. Que força é essa que torna o ser humano tão mais passional? Quantas represas são destruídas pela potência incontrolável dessa água (ardente)?

Toda a razão, os temores infantis, os "nãos", as prudências inúteis, tudo se dissolve nas vontades e desejos que o peito acelarado sempre quis gozar.  No final, não importa o que se fez de olhos fechados ou braços abertos. Não importa quem subiu na mesa ou quem cantou mais alto. Não importa quem gargalhou ou quem dormiu de boca aberta e até roncou.

Não importa quem se embriagou de whisky e quem se embriagou de prazer.

Importa sim o fato incontestável, a realidade inexorável de que nada foi capaz - por um minuto ou por uma vida inteira - de deter o vivo espírito. E aí começa o sutil processo de compreender que o álcool não tem nada, absolutamente nada a ver com esses desejos recônditos.

O mérito da felicidade então sai do copo vazio e é entregue a quem de direito. Porque a verdade última não é a alcóolica, é a da sóbria necessidade de se dizer "sim".

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quem tem medo dos gays? (por Rafa)

"Prezadas famílias de comercial de margarina, células fundamentais da nossa sociedade, núcleos familiares formados por um pai provedor-bonachão-de-bigodes, mãe-de-avental-fazendo-bolinhos-de-chuva-no-Domingo-de-tarde e crianças-loiras-e-sapecas-comendo-seus-sucrilhos-no-café-da-manhã: Nós os gays, também chamados de bichas, viados, boyolas existimos!

Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.

(...)"

Esse texto não é meu, é de uma das pesssoas mais queridas que conheço. Mais do que isso, um irmão que ganhei de presente... um irmão de quase sangue. E o texto do Rafa não para por aqui: com esse estilo contundente e preciso, ele toca na ferida, fala por muitos, denuncia um cansaço latente que a massa heteronormativa não faz questão de notar.

Quer ler a íntegra? Então acesse o "Tanta Coisa". Você não vai se arrepender.

Me solta.

Adoro a sensação de libertação que tenho em momentos absolutamente inesperados.

Uma coisa é você correr atrás de liberdade.
Outra é a liberdade correr atrás de você... 

...e ela corre, faz questão de te alcançar até você se render. Então você finalmente aceita o fato - óbvio fato - de que a pior prisão é a que impomos à nossa própria mente.

Já tive experiências suficientemente drásticas que me fizeram abandonar o melhor de mim em benefício de valores que nem existem mais. Ou melhor, existem em uma outra dimensão. Algo muito superior aos conceitos e preconceitos que pautaram o meu longo caminhar.

Fato: tudo o que somos é a soma do que se agregou e aprendeu ao longo do tempo. Uns aprendem rápido, outros insistem em bater a cabeça na parede por anos e anos. O processo é assustadoramente individual.

E eu já não sei mais se esse post é sobre prisão ou liberdade. Talvez seja justamente sobre...

o processo.