Não foi a primeira vez que Ana se viu naquela situação. A diferença é que, pela primeira vez, decidiu se posicionar sobre seu maior medo.
Com a viagem do marido, no momento em que fechou a porta, a pressão das paredes foi quase sobre-humana. Milhões de sons se dissolviam ao mesmo tempo à espera do grito fulminante que um dia ela sabia que precisava dar.
Mas sabia também, com pesar, que não seria aquele o derradeiro momento de sua maior angústia. Não, não era a ausência de pessoas, de vozes, de risos; não era a ausência de batimentos cardíacos que a assustava: era o vazio gelado que só ela sentia no peito.
Veio, é claro, aquela velha vontade lancinante de fingir que nada daquilo era problema dela. Fugir. Voltar no tempo. Se matar só por uma noite.
Mas não, nada disso adiantaria. Cabia a ela a força e a coragem de sair da própria inércia e perceber que tudo dependia do quanto ela acreditava em si própria, no seu poder, nos seus talentos. No quanto Ana era linda e merecia ser amada, ser amada pelos outros e - principalmente - por si própria.
Ela sabia de tudo isso. Ela sempre soube... mas saber é muito racional e para qualquer outro processo talvez fossem necessários dias, meses, anos, quem sabe uma outra encarnação; ou talvez tudo se resolvesse amanhã, quando o sol a fizesse esquecer a dor de sua eterna solidão.
Ana esperou a lágrima secar e dormiu. Foi até bonito o sonho que teve.

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