sábado, 30 de julho de 2011

O Que Aparece

Não vou me desculpar pela vida que eu não criei. Vieram os lobos e eu estava só.

Há uma angustia premente que assola o passado, magoa o presente, afugenta o futuro. Pois tudo o que vejo devia ser mais leve, ou mais livre, ou mais feliz. Ai daquele que abre mão da própria vida para se esconder atrás de uma imagem bela e sensata. É que toda dor tem seu preço e algumas são caras demais.

Sorrisos nervosos, nem sempre sinceros, mas que demonstram que sim, eu sou confiável. E você pode mostrar a melhor parte de si, ou a mais frágil: dá no mesmo. Eu não vou julgar nada, vou permitir tudo, vou estimular a jogo de euforia e desespero das verdades mundanas.

Porque eu vou mentir pra mim ao mesmo tempo em que só falarei a verdade aos outros.
Porque ser fiel e leal a algo superior nem sempre é assim tão fácil.
Porque eu aceitarei resiliente, prometo, a busca incansável por essa paz que não existe.


E um dia eu agradecerei a quem me amar por tudo isso. Ou apesar de tudo isso. Dá no mesmo.

sábado, 30 de abril de 2011

Anglicanize-se

O Catecismo da Igreja Anglicana, com prefácio de David Hope (arcebispo de Nova York de 1995 a 2005, e segundo nome mais influente na religião local à época), afirma que a homossexualidade "pode muito bem não ser uma condição a ser lamentada, mas que foi definida de forma divina e com qualidades positivas."

O texto completa: "Cristãos homossexuais devem ser encorajados a encontrar em suas preferências sexuais elementos de beleza moral, como forma de incrementar sua compreensão do chamado de Cristo."

Espera, é isso mesmo? "definida de FORMA DIVINA e com qualidades POSITIVAS... encontrar em suas preferências sexuais ELEMENTOS DE BELEZA MORAL".

FORMA DIVINA... BELEZA MORAL... BELEZA MORAL... BELEZA MORAL... desculpem, é que eu não canso de repetir.

Acho que virei anglicano.

domingo, 3 de abril de 2011

AnaCrônicas III

Ela fez algo errado. Tinha consciência disso, arrependia-se e buscava uma oportunidade para se justificar. Ana passou a vida inteira com ideias pré-concebidas sobre certo, errado, bom e mau.

A verdade é que tinha medo de flexibilizar seus próprios conceitos. Ao pensar no assunto, achava que com isso perderia o controle sobre si mesma.

Sem poder mais resistir à pressão que colocou nos próprios ombros, ela foi atrás de Carla para fazer o que afinal era a única coisa que entendia como certa:

- Carla, eu preciso dizer uma coisa.

E assim contou todos os detalhes do ato que tanto lhe envergonhava. Carla ouviu tudo, sempre atenta, compreendendo o quanto aquele momento de confissão representava para Ana. Ao final, virou-se para a amiga e disse:

- Está tudo bem.

- Não, Carla, não está. Você precisa me perdoar.

- Eu já te perdoeei. Há muito tempo.

Ana ouviu aquela frase e deixou ela penetrar-lhe de forma dolorosa até. Pensou um pouco, respirou com dificuldade, e completou.

- Mas eu não.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Psicopatas

Afinal temos ou não algum vestígio de psicopatia dentro de nós?

Acho curiosa a ideia de desejar não sentir.
Não sentir culpa.
Não sentir remorso.

Isso é muito diferente do prazer com o mal. Não. Estou falando do fazer algo sem medir consequências, independentemente de qual seja o resultado. Mesmo que algo de ruim ocorra de forma secundária e inevitável.

Por exemplo, o namorado da garota que você está afim. Por que ele não assume um cargo no Zimbábue e deixa o caminho livre pra você? E o burocrata que só emperra a tua vida? Por que ele não pega uma virose doida e tira auxilio-doença por 873 anos?

Ok, ok: quem nunca quis matar alguém? Vamos, pode confessar; a cogitação e os atos preparatórios não são puníveis, graças a Deus!
"Bastava só um pouco de..."
"Seria tão mais fácil se..."

A verdade é que o coração humano quer a luz, mas nunca ignora a escuridão. E alguém aí sabe o tamanho da sua própria escuridão?

Não é por mal. É apenas pelo meu bem.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A mosca na sopa

Que coisa incômoda!
Que coisa mais desagradável...

Onde já se viu, um lugar como esse, tão fino, tão chique, freqüentado por pessoas de tão bom caráter, boa índole. Um lugar tão bem administrado, com um atendimento tão primoroso. Onde já se viu?

Às vezes dá vontade de desistir de tudo, de abandonar nossos próprios ideais, deixar de acreditar nas pessoas, no futuro. Às vezes dá vontade de fingir que não é um problema nosso, que nós nem somos esse talzinho que está sendo procurado, caçado, desesperadamente solicitado.

Aí você olha ao redor e tudo o que vê é um mundo repleto de possibilidades. Um mundo em que você pode sim fazer alguma diferença para alguém, para uma criança, para um idoso, para um ninguém.

Nesse momento você percebe que essa explosão de indignação não valia um naco da sua energia. Afinal, nos melhores restaurantes sempre haverá a possibilidade boba de se encontrar uma mosca na sopa... uma reles, inútil, medíocre, insignificante e desgraçada mosca.

Uma mosca, assim como um deputado... Jair Bolsonaro.

"Eu sou a mosca que pousou na sua sopa."
Na minha não.



domingo, 13 de fevereiro de 2011

AnaCrônicas II

Não foi a primeira vez que Ana se viu naquela situação. A diferença é que, pela primeira vez, decidiu se posicionar sobre seu maior medo.

Com a viagem do marido, no momento em que fechou a porta, a pressão das paredes foi quase sobre-humana. Milhões de sons se dissolviam ao mesmo tempo à espera do grito fulminante que um dia ela sabia que precisava dar.

Mas sabia também, com pesar, que não seria aquele o derradeiro momento de sua maior angústia. Não, não era a ausência de pessoas, de vozes, de risos; não era a ausência de batimentos cardíacos que a assustava: era o vazio gelado que só ela sentia no peito.

Veio, é claro, aquela velha vontade lancinante de fingir que nada daquilo era problema dela. Fugir. Voltar no tempo. Se matar só por uma noite.

Mas não, nada disso adiantaria. Cabia a ela a força e a coragem de sair da própria inércia e perceber que tudo dependia do quanto ela acreditava em si própria, no seu poder, nos seus talentos. No quanto Ana era linda e merecia ser amada, ser amada pelos outros e - principalmente - por si própria.

Ela sabia de tudo isso. Ela sempre soube... mas saber é muito racional e para qualquer outro processo talvez fossem necessários dias, meses, anos, quem sabe uma outra encarnação; ou talvez tudo se resolvesse amanhã, quando o sol a fizesse esquecer a dor de sua eterna solidão.

Ana esperou a lágrima secar e dormiu. Foi até bonito o sonho que teve.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Verdades Acóolicas

Não, eu não estou bêbado! Apesar de todo bêbado começar qualquer discurso com essa frase, a verdade é que não estou bêbado.

Eu apenas refletia sobre o poder do vinho sobre o coração das pessoas. Que força é essa que torna o ser humano tão mais passional? Quantas represas são destruídas pela potência incontrolável dessa água (ardente)?

Toda a razão, os temores infantis, os "nãos", as prudências inúteis, tudo se dissolve nas vontades e desejos que o peito acelarado sempre quis gozar.  No final, não importa o que se fez de olhos fechados ou braços abertos. Não importa quem subiu na mesa ou quem cantou mais alto. Não importa quem gargalhou ou quem dormiu de boca aberta e até roncou.

Não importa quem se embriagou de whisky e quem se embriagou de prazer.

Importa sim o fato incontestável, a realidade inexorável de que nada foi capaz - por um minuto ou por uma vida inteira - de deter o vivo espírito. E aí começa o sutil processo de compreender que o álcool não tem nada, absolutamente nada a ver com esses desejos recônditos.

O mérito da felicidade então sai do copo vazio e é entregue a quem de direito. Porque a verdade última não é a alcóolica, é a da sóbria necessidade de se dizer "sim".

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quem tem medo dos gays? (por Rafa)

"Prezadas famílias de comercial de margarina, células fundamentais da nossa sociedade, núcleos familiares formados por um pai provedor-bonachão-de-bigodes, mãe-de-avental-fazendo-bolinhos-de-chuva-no-Domingo-de-tarde e crianças-loiras-e-sapecas-comendo-seus-sucrilhos-no-café-da-manhã: Nós os gays, também chamados de bichas, viados, boyolas existimos!

Talvez vocês não tenham reparado, mas aquele tio solteirão, o primo que raramente comparece às festas de família e sempre que vai, leva um amigo, sãos gays. Desculpem-me avisá-los assim, mas há entre nós senhores de respeitável aparência e família solidamente formada e mulheres eternamente insatisfeitas com os maridos que, uma única vez, numa Quinta à noite tocaram suas amigas por sobre a blusa. Isto e pegações em lugares escuros, encontros fortuitos e uma psique destroçada era todo o possível para nós, as bichas, até algumas décadas atrás.

(...)"

Esse texto não é meu, é de uma das pesssoas mais queridas que conheço. Mais do que isso, um irmão que ganhei de presente... um irmão de quase sangue. E o texto do Rafa não para por aqui: com esse estilo contundente e preciso, ele toca na ferida, fala por muitos, denuncia um cansaço latente que a massa heteronormativa não faz questão de notar.

Quer ler a íntegra? Então acesse o "Tanta Coisa". Você não vai se arrepender.

Me solta.

Adoro a sensação de libertação que tenho em momentos absolutamente inesperados.

Uma coisa é você correr atrás de liberdade.
Outra é a liberdade correr atrás de você... 

...e ela corre, faz questão de te alcançar até você se render. Então você finalmente aceita o fato - óbvio fato - de que a pior prisão é a que impomos à nossa própria mente.

Já tive experiências suficientemente drásticas que me fizeram abandonar o melhor de mim em benefício de valores que nem existem mais. Ou melhor, existem em uma outra dimensão. Algo muito superior aos conceitos e preconceitos que pautaram o meu longo caminhar.

Fato: tudo o que somos é a soma do que se agregou e aprendeu ao longo do tempo. Uns aprendem rápido, outros insistem em bater a cabeça na parede por anos e anos. O processo é assustadoramente individual.

E eu já não sei mais se esse post é sobre prisão ou liberdade. Talvez seja justamente sobre...

o processo.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Eu vos declaro...

 Enquanto o Brasil é palco de debates inflamados sobre a regulamentação do já famoso "casamento gay", "união estável gay", "união civil", "contrato de parceria"... homens e mulheres continuam casando.

Alguns homens se casam com mulheres.
Alguns homens se casam com homens.
Algumas mulheres se casam com mulheres.

A realidade é muito mais pragmática do que o processo legislativo ou as tramitações judiciais. De fato, o Congresso Nacional, O Supremo Tribunal Federal, o Superior Trinunal de Justiça não dispõem do poder ou da autoridade necessária para dizer quem REALMENTE se casa ou não.

As pessoas estão atrás de direitos sim, mas antes disso, elas dão um jeito de encontrar a própria felicidade, com ou sem lei. Para alguns, o ritual faz parte desse projeto de vida, e estar diante de um altar, qualquer altar, é a realização de um sonho. Isso é tudo o que importa: o sonho e seus meios de torná-lo tão real.

Se alguns desses casais não podem receber as bênçãos de suas respectivas igrejas ou ainda as do próprio Código Civil, isso é outra história. Eles recebem sempre as bênçãos um do outro: o amor de suas vidas não apenas caminha lado a lado, mas consagra o que há de melhor no bem amado (ou bem amada).

E quando, aos pés daquele altar, o casamento se findar: casamento hetero, casamento gay, legalmente regulamentado ou não, religiosamente admitido ou não, mas sempre acolhido pelo Amor Superior... no final disso tudo, o/a celebrante só precisa dizer:

"Eu vos declaro... felizes."